quinta-feira, maio 28, 2009

Depois de muito tempo em coma, acaba de ser desligada a máquina deste blogue. Continuarei a escrever de vez em quando sobre bola no Facciosos e no Pesporrente.

quarta-feira, outubro 08, 2008

Calmaria nas hostes

Tenho andado ausente por motivos profissionais, mas voltei para derramar pesporrência.

Cinco jornadas depois, e preparando-nos para uma segunda paragem, é curioso ver os estados de alma dos adeptos, facciosos ou não, dos três grandes.

Os morcões, com a tranquilidade de décadas de hegemonia (nuns casos legítima, noutros nem por isso), estão de novo na mó de cima, de novo por cima dos dois velhos marretas da Segunda Circular lisboeta, de novo a olhar de cima o resto da procissão que chegará ao santuário lá para Maio do próximo ano. Resta saber de que cor serão os panejamentos do andor. Pelo que se viu em Alvalade, e apesar do resultado, estão longe do poderio de outros tempos. No entanto, todos sabemos que isso não tem sido entrave. Este ano, e sem as tradicionais apitadelas, parecem ter apostado noutra táctica, que de resto já deu frutos no Boavista no início deste século: a cacetada. No Domingo, em Alvalade, senti-me como um romano num espectáculo de gladiadores, com a diferença de que não havia aspersões de perfume.

Os lampiões, com a sua característica personalidade maníaco-depressiva, passaram das lamúrias caliméricas das primeiras jornadas para a euforia e a certeza de que este ano é que é. Aliás, ainda à 4ª jornada já o insuspeito Record trazia artigos de opinião com títulos do género "Benfica campeão se...". Compreende-se a euforia: neste século têm sido muito raras as ocasiões em que o Benfica conseguiu ganhar ao Sporting no Galinheiro (2 apenas, se a memória não me falha), mas não se justifica. Como se viu na jornada seguinte, o Benfica este ano parece fadado para continuar a dar muitas alegrias aos adeptos. Aos do Sporting e aos do Porto. Houve ainda a vitória sobre aquela equipa italiana, actual 7ª classificada e há muito afastada destas lides. Logo se falou de um regresso às grandes noites europeias de anos há muito idos. Assim se vê como andam as expectativas por aquelas bandas.

Os sportinguistas, depois de um início de campeonato muito prometedor mas com apenas um resultado realmente significativo - a vitória em Braga -, entraram em depressão com a previsível, esperada e naturalíssima derrota em Barcelona, não ficaram convencidos com a previsível, esperada e naturalíssima vitória contra o Basileia (fosse isto do outro lado da Segunda Circular e teríamos uma "noite comparável à dos anos 60"), entraram em estado de choque com a inesperada derrota no Galinheiro, e encolheram os ombros descrentes com a derrota contra os morcões. Convenhamos: destas três derrotas apenas os 0-2 no Galinheiro são preocupantes, surpreendentes e motivadores de revolta nas hostes. Tendo em conta o historial recente, esse seria o resultado menos previsível. A única coisa que poderia levar a prevê-lo seria a tradição que diz que ganha quem está em pior momento. Mas ainda assim, e tendo em conta a sucessão de vitórias (algumas confortáveis) e empates conquistados no Galinheiro na última década, nada faria esperar uma coisa daquelas. A derrota em casa contra os morcões também não caiu bem, embora menos surpreendente, e instalou-se de novo o desânimo entre os sportinguistas. É preciso no entanto não esquecer um ponto importante: apesar da campanha oficial em sentido contrário, dificilmente o Sporting pode ambicionar a mais do que tem feito nos últimos anos, tendo um orçamento bastante inferior ao dos rivais. E muito se tem feito, nomeadamente ao ficar regularmente mais bem classificado e ao ganhar incomparavelmente mais troféus do que o clube que ostenta já há algumas épocas os orçamentos mais altos, e que, paradoxalmente nada tem conquistado, e do 3º não tem passado.

O que lampiões e sportinguistas parecem esquecer, porém, é que só passaram ainda 5 jornadas, e a procissão nem no adro ainda vai. Parecem também esquecer o velho lugar-comum (ainda assim verdadeiro) que reza que os campeonatos não se ganham nem se perdem nos confrontos entre os grandes. Embora sejam indicadores importantes - e o Sporting tem de reflectir e preocupar-se - não são decisivos. Sobretudo quando, como por feliz acaso acontece nesta época, se concentram todos nas primeiras jornadas. Isto permite que, por um lado, os inegáveis bons resultados de morcões e lampiões não sejam demasiado relevantes, e por outro os péssimos resultados sportinguistas não sejam, longe disso, um revés irrecuperável. Basta olhar para a classificação para o perceber. Quanto a mim, gosto assim: se as coisas correm mal nos clássicos, como começaram a correr este ano, há sempre muito, mesmo muito tempo para recuperar. E isto é válido para a segunda volta. Quanto aos morcões, e apesar de a minha opinião não ser original, cheira-me que não vão dar o passeio calmo dos últimos anos.

[publicado em simultâneo no Facciosos]

domingo, agosto 31, 2008

Ug

[Publicado em simultâneo no Facciosos]

O jogo não estava a ter graça nenhuma, até que, talvez reagindo pavlovianamente à presença de um árbitro (salivava abundantemente, pelo menos, e reagiu a um apito, que é o mais próximo num estádio de uma campainha de laboratório), um lampião vestido num misto de bobo da corte com diabrete de Bosch abriu a porta do curral, despejou para dentro do campo a barriga pantagruélica - o resto do corpo veio atrás, arrastado pela gravidade - e empurrou o primeiro portista que lhe apareceu à frente, no caso um árbitro. Grasnou qualquer coisa que não se consegue decifrar enquanto não se achar uma pedra de Rosetta com um Champollion lampião apenso, e regressou calmamente ao seu lugar, perante a bovina pachorra da segurança, que, tal como os adeptos em volta, não deve ter achado mal nenhum na descarga bestial da criatura avermelhada. Dizem as crónicas que só à força de bastonada a turba circundante permitiu que a polícia fizesse aquilo que o mais básico sentido de civilidade e educação dita: a detenção de uma pessoa que agride outra pelas costas, ainda por cima naquelas circunstâncias (embora se dispensasse o espectáculo de termos 3 ou 4 polícias a bater num velho louco e lampião, mas ainda assim uma pessoa de idade). É tristemente revelador da falta de cultura cívica de um país. Alguém viola todas as normas de conduta entre seres humanos, agredindo pelas costas outro ser humano, e a populaça não só não acha mal como não permite que o agressor seja punido. Sic transit gloria mundi, pardon my latin.

Parece que segundo os regulamentos a coisa se fica por uma multa simbólica ao benfica, o que não me parece mal, embora me questione sobre a justiça de pagar um clube pelas cavalidades dos seus adeptos, e só o consiga compreender como forma de evitar a ocorrência de actos de vandalismo concertado. Não sei o que acontecerá à criatura agressora, pois não li os regulamentos e, convenhamos, há coisas mais interessantes para ler a um Domingo de manhã, mas num país a sério levaria uma multa pouco simbólica, e teria a entrada vedade em estádios de futebol durante um período considerável de tempo. Como isto não é um país a sério, e não tenho notícias de que tenha sido essa a punição adoptada quando algumas criaturas da Juve Leo invadiram o campo no final de um Sporting x benfica em 2004, o mais natural é que se safe com uma palmadinha nas costas na esquadra para onde foi levado (com sorte apanhou um graduado de serviço de bigodes benfiquistas), e seja recebido em alarve apoteose por uma turba extática entre gritos desdentados e bigodes enlevados. Pois é este o país que temos.

terça-feira, agosto 26, 2008

Agora é que dá uma pataleta ao Oliveira


«Vai dar faísca. Maxi Pereira e Cristian Rodríguez são amigos pessoais, colegas na selecção do Uruguai, chegaram juntos para o Benfica e, na época passada, eram vizinhos, falam até de casamentos, mas na noite do próximo sábado, no Benfica-FC Porto, vai ser como se nunca se tivessem visto na vida.»

É com grande alegria que aqui se regista o "coming out" do Maxi Pereira e do Rodríguez, que admitem e assumem à imprensa que entre eles a coisa dá faísca e que até falam já de casamento. Aos nubentes deixo os meus parabéns. Onde é a boda?

domingo, agosto 24, 2008

Mais um belo jogo


Começou

[publicado em simultâneo no Facciosos]

Foi jeitoso. O resultado foi animador, a exibição da primeira parte bastante razoável. Parece-me que não houve nenhum jogo na época passada em que o Sporting tivesse feito uns 30 minutos tão agradáveis e, a espaços, entusiasmantes. Não tenho muitas esperanças quanto ao título, até porque o Sporting parte, como nos últimos anos, na terceira posição da grelha de partida, distanciado em termos de orçamento, número de associados e apoios dos dois rivais. Ainda que, como se tem visto, os maiores orçamentos nem sempre correspondam a melhores classificações, a verdade é que é sempre uma condicionante de relevo. Não tenho muitas esperanças, dizia, mas eu nestas coisas sou muito parvalhão e ingénuo, e nem me importo de ficar em 2º ou 3º, desde que veja bom futebol. E este ano parece-me que vou vê-lo, "in xa' Allah".

Confesso que ainda pensei, quando aos 28 ou 29 minutos berrei golo pela 3ª vez, que íamos ter goleada das antigas. Martelei mesmo um sms desse teor a um amigo, que obviamente era extemporâneo. O sms, não o amigo. Acho. Seja como for, a verdade é que a partir daí o jogo se foi enroscando num tédio amolengado, assim ao ritmo dos cabelos compridos da brasileira à minha frente, que os esfregava (sem querer, quero crer) ritmadamente nos meus joelhos estivalmente desnudos. (Dois advérbios em mente numa mesma oração, francamente, é deprimente, mas que se lixe). Depois veio o intervalo, e o lamentável espectáculo das "cheerleaders" em coreografias escanzeladas, perante a consternação generalizada dos poucos que ficaram nas bancadas para aturarem aqueles implantes saltitões enxertados nos estádios portugueses com a mesma naturalidade com que se enxertaria uma macieira numa palmeira. Pisguei-me assim que pude.

A coisa só animou quando, já na segunda parte, o árbitro assinalou aquele penálti espantoso que mais ninguém no estádio viu, aparentemente nem o fiscal de linha. De resto a noite de hoje pode vir a fazer história na jurisprudência desportiva, se tal coisa existir: passa a haver um precedente para a marcação de penálti em faltas a uns bons dois metros da área. Confesso que ainda me passou pela cabeça rapada de fresco (e talvez pour cause) que como o rapaz da Trofa tinha aterrada na área, talvez ainda se admitisse aquela coisa de a falta poder ser começada fora, mas acabar lá dentro. Só que imediatamente me lembrei de que isso só se aplica se o jogador começar a ser agarrado fora, e continuar a ser agarrado dentro, o que, claramente, não foi o caso. O que me faz confusão é que se até para um aspirante amaricado a latinista e a arabista isto é claro como a água, lá em cima na bancada B, como é que pode ter passado em claro a um rapazola de nome evangélico que até fez um daqueles cursos de árbitros? Mais valia se calhar ter andado a fuçar no latim e no grego, fazia melhor figura. Até lhe posso desculpar o penálti perdoado aos tipos da Trofa, que passou despercebido a quase toda a gente no estádio, mas aquele penálti "a meio campo", enfim, não sei, faltam-me os adjectivos e os advérbios em mente.

Não vou, no entanto, embarcar no discurso paranóico-conspirativo - e a tentação era grande, pois ele só se enganou para um lado. O que ficou evidente na noite de hoje, em termos de arbitragem, foi que aquele cavalheiro de apito na boca, é, à semelhança da generalidade dos árbitros portugueses, incapaz e incompetente. Completamente. E isto foi só o começo. Infelizmente.

Para continuar a remoer os aspectos negativos, não gostei de verificar que ainda há alguns cripto-lampiões que assobiaram o Moutinho. Ou então estavam a assobiar a Taça que ele exibia. Nem uma coisa nem outra é de sportinguista a sério. Aliás, não sei qual será pior. Não tive oportunidade de ladrar a quem o fazia, porque o meu lugar é numa zona de sócios, e, tirando o L. F. Vieira, não deve haver mais nenhum lampião sócio do Sporting. Na minha bancada, onde só há sportinguistas, aplaudiu-se o Moutinho e a Taça.

Por fim, o melhor da festa, que foi mesmo isso: a festa. O estádio estava cheio, embora os números oficiais apontassem para pouco mais de 25000 pessoas, o que revela que algo vai mal no sistema de contagem de acessos. Esse número representaria meia casa, e até onde o meu olhar alcançava, na bancada B, não havia mais do que meia dúzia de lugares livres. O pessoal da Trofa compareceu em grande número: tirando as óbvias excepções morconas e lampiãs, além de Leixões, Setúbal e Guimarães, não me lembro de ver tanta gente acompanhar uma equipa adversária a Alvalade. Havia muitos, quer na zona atribuída aos apoiantes adversários, que enchiam por completo, quer espalhados pelo resto do estádio. E, como sempre em Alvalade, sem conflitos nem problemas. Aqui é tudo gente boa, tirando um ou outro energúmeno - acontece nas melhores famílias.

quarta-feira, agosto 20, 2008

Queiroz II

«Selecção não é casa nem espectáculo com lugares marcados». A Frase é de Carlos Queiroz, e marca a primeira grande diferença em relação à era Scolari. A segunda grande diferença vem na enumeração dos critérios que presidem a uma convocatória: «Mérito, atitude, forma, qualidade técnica e potencial».

domingo, agosto 17, 2008

O primeiro

Ora assobiem lá agora

[publicado em simultâneo no Facciosos]

Ora assobiem lá agora, deve estar a pensar o Djaló, vaiado e assobiado várias vezes na época passada por alguns cripto-lampiões em Alvalade. O miúdo vai fazendo o que sempre fez bem: jogar e marcar. Do jogo só pude ver a primeira parte, e a espaços, pois estava num jantar (não, eu não passo a vida em jantares). Do pouco que vi pareceu-me ter sido um óptimo jogo, a defesa do Porto lá foi evitando o inevitável, e quando falhava lá estava o Xistra a dar uma ajudinha (literalmente), a aliviar um cruzamento para fora da área morcona. Rezam as crónicas que o Sporting mereceu a vitória, o que não impediu o Jesualdo de, em mais uma demonstração do seu já proverbial mau perder, falar em "felicidade" do adversário que lhe ganhou 4 dos últimos 5 jogos oficiais, os três últimos pelo mesmo resultado, os dois últimos sem discussão. Será que o facto de o Porto nos últimos 5 jogos só ter conseguido marcar 1 golo ao Sporting, no célebre livre directo na área, é só falta de sorte?

Não é importante a Super Taça, é um troféu menor, mas é sempre moralizante vencê-la diante de um rival, sobretudo tendo esse rival a categoria do Porto, dominador indiscutível do futebol português nas últimas 3 décadas. Pede-se agora que, ao contrário do que aconteceu na época passada, não se desperdice esta oportunidade para lançar a equipa numa boa campanha nacional e europeia. Seja como for, um troféu oficial já cá canta. O 4º em 2 anos, o que, não sendo perfeito, sempre é melhor do que outros que tanto gostam de se pôr em bicos de pés, mas que em mesmo período não têm nem 1 para amostra.

sexta-feira, agosto 15, 2008

Queiroz II

A convocatória para a seleçcão da FPF, a primeira da era de Queiroz II, retoma a tradição de se convocarem apenas os jogadores em forma (o Nuno Lampião é a excepção que confirma a regra). Como se previa, foram deixados de fora os jogadores incapacitados para a prática futebolística de forma temporária ou permanente, e pela primeira vez em muitos anos apenas foram convocados os jogadores de facto em forma e com provas dadas. Com a tal excepção. Ao contrário dos tempos da Senhora do Caravaggio, parece que finalmente os critérios futebolísticos voltaram a ser determinantes.

quarta-feira, agosto 13, 2008

Ai filho!


Se o António Oliveira vir isto dá-lhe uma sulipanta! Por mim fico satisfeito de ver que não estou assim tão sozinho no mundo do futebol, no que a mariquices diz respeito.

domingo, agosto 10, 2008

Cherchez l'arbitre!

[publicado em simultâneo no Facciosos]

Já aqui disse que não gosto de jogos de preparação, ou, como eufemisticamente se ouve mais, de pré-época. Apesar disso ontem fui a Alvalade ver o Sporting. Porque estou com fome de bola, porque o jogo estava incluído na Gamebox, e sobretudo para aplaudir freneticamente o Moutinho e cuspir olhos furiosos sobre os lampiões infiltrados que se atrevessem a assobiá-lo.

Este terceiro objectivo saiu-me, felizmente, defraudado. Primeiro porque, num esquecimento cheio de intenção, a constituição das equipas não foi fornecida. E não foi por problemas técnicos, de certeza: o speaker de serviço agora até regouga o tempo de compensação. Fez-me lembrar o já distante ano de 2003, quando o assobiadíssimo e lençobrancado Fernando Santos levou a que o nome do treinador deixasse de ser referido no final da constituição das equipas. O facto de se lhe ter seguido o Peseiro, mal amado entre os adeptos ainda antes do primeiro jogo, ajudou a que a curiosa omissão se mantivesse mesmo durante o consulado do popularíssimo Paulo Bento. Esperemos que com isto não se inaugure nova tradição em Alvalade. É que enquanto não se arranjar maneira de expulsar os lampiões infiltrados, haverá sempre assobios à equipa (!) e aos seus jogadores (!). Não tive, felizmente, até ao fim do jogo oportunidade para escarrar olhos indignados aos assobiadores, porque estes eram raros, e distantes do lugar onde me achava. De resto, e como estou mesmo na central, num lugar de sócios, é natural que o nível seja outro, e que não haja lampiões - tirando o Vieira do benfica não conheço mais nenhum lampião que seja sócio do Sporting. De vez em quando lá se ouvia um lampião assobio, mas foi coisa rara.

A oportunidade de ouro foi a grande penalidade. Numa atitude corajosa e arriscada, tendo em conta o passado recente da equipa, foi o Moutinho o designado para marcá-la. E aqui tiro o meu chapéu a quem tomou a decisão. É que, como diria o Mr. de La Palisse ou o Jesualdo, só havia duas hipóteses: ou o Moutinho falhava e era despedido com uma monumental vaia por parte dos lampiões, ficando os sportinguistas a sério na contingência de ter de aplaudir um falhanço para contrariar os adversários, ou concretizava, e os lampiões ficavam sem pretexto para assobios. Marcou, apesar de alguns assobios do sector lampião, nos momentos que antecederam a marcaqção, prontamente abafados pelos aplausos dos sportinguistas presentes. Aliás se dúvidas houvesse sobre a filiação clubística dos assobiadores, ontem ficaram bem evidentes: se ainda posso conceder (mas não compreender) que, num delírio inexplicável, um adepto de um clube decente assobie um seu jogador, acho que ultrapassa todos os limites do entendimento humano assobiar um jogador da própria equipa quando este se prepara para marcar uma grande penalidade. Ergo, ficou ontem provado que os assobiadores de Alvalade são cripto-lampiões.

Quanto a mim aplaudi freneticamente o rapaz, antes, durante e depois da marcação da grande penalidade, e só não o aplaudi de pé quando saiu porque gosto de manter alguma compostura, e não incomodar quem está atrás e quer ver o jogo.

Em relação ao jogo propriamente dito, um bocejo longo, longo de quase 2 horas, contando com o intervalo. Foi pena não ter levado um livro para me entreter. Isto até entrar o Postiga, claro, a partir daí o jogo ganhou novos motivos de interesse. Gostei de um alívio que fez na área adversária a um remate de um sportinguista que não consegui perceber quem era, mostrou ter categoria para central. Gostei também da classe demonstrada quando tropeçou em si mesmo e rebolou no relvado. É preciso ter nível para cair daquela maneira e levantar-se logo a seguir com aquele ar de no pasa nada.

Para a semana começa o futebol a sério.

P.S.: enquanto conduzia em direcção à praia, a meio da manhã, ia ouvindo na Antena 1 o desfiar diário dos fracassos dos atletas portugueses nos Jogos Olímpicos. Quando chegou à Telma Monteiro percebi que de facto ela já está completamente integrada e ambientada no clube que a recebeu quando já estava devidamente formada e credenciada: pôs as culpas da sua eliminação no árbitro.

segunda-feira, agosto 04, 2008

Vão lá assobiar para vossa casa e deixem o estádio para os sportinguistas a sério!

[publicado originalmente no Facciosos]

Não estive ontem em Alvalade, pois calhou-me estar no Porto para o casamento de um grande e querido amigo. Li e ouvi, no entanto, que o João Moutinho foi assobiado. Não estou em condições físicas nem intelectuais para grandes efusões retóricas, poupo-vos a isso. Queria apesar disso deixar aqui os meus 5 tostões sobre o assunto.

Não se bate na mãe. É feio. Muito feio. Nem para fundar um reino. Nunca. Nem quando nos remói o juízo ruminando olhaquestàfrios cansados ou a resmungar andazacomertãomales em aflições fora de tempo. Não. Nem quando nos bate à porta de casa às 8 da manhã a desfiar erasòparassabersetinhaschegadobens quando nos deitámos meia hora antes depois de uma noite daquelas que não se podem contar às mães. Nunca. Nem quando nos lança olhos de mater dolorosa e de palmas voltadas ao céu nos implora lhe demos um neto nem que seja recorrendo a barriga de aluguer. Não. Nem quando nos ensina os sobrinhos a gritar vivòbenficas ainda antes de atingirem a idade da razão (et pour cause). Nem assim. Não. Nunca. Não se bate na mãe.

Por isso não consigo entender, por mais que retorça as meninges, o que leva alguém a assobiar, apupar, vaiar, ofender a sua equipa. Por isso não consigo compreender o que leva alguém a assobiar, apupar, vaiar, ofender os jogadores da sua equipa, mesmo sendo eles incapacitados para a prática desportiva. A mim nunca ninguém me ouviu assobiar, apupar, vaiar ou ofender em Alvalade o Purovic, o Silva, o Alessandro, o Deivide, o Hugo, o Bueno, o Luís Filipe e outros do mesmo jaez. No máximo ter-me-ão ouvido uns foda-se ou uns estegajo rosnados entre dentes e acompanhados de cerrar de punhos e olhos postos na cobertura do estádio - não no céu, porque eu não acredito em deuses, nem celestes nem ctónicos.

Esta fraqueza inofensiva permite-me, pois, ter alguma tolerância para com quem se levanta e urra impropérios quando o Purovic tropeça em si mesmo e rebola na relva, ou quando o Silva, na área adversária, aliviava bolas lançadas pelo ataque do Sporting, ou quando o Hugo fazia assistências para avançados adversários ou concretizava belos auto-golos. Eu nem assim consigo ir além do supra dito foda-se silencioso.

Porque não adianta. Porque nunca vi ninguém melhorar o seu desempenho depois de lhe ofenderem a mãe ou lhe diminuirem a virilidade ou lhe difamarem a orientação sexual. E sobretudo porque nunca vi uma equipa melhorar o seu desempenho depois de vaiada por uma assobiadela dos seus próprios adeptos. Ainda que a minha formação na área da psicologia seja rudimentar, uma das coisas básicas que aprendi foi que usar reforço negativo para melhorar o desempenho, seja em que área for, é assim um bocadinho como tentar matar a sede com cubos de sal. A mim parece-me óbvio, claro como a água, mas como achava os seminários de Psicologia Educacional uma xaropada das antigas, admito que tenha adormecido em momentos importantes, e que o meu raciocínio esteja inquinado por isso.

Admito, todavia, ainda que não o faça, que se assobiem jogadores adversários, com a intenção de os enervar. O que nos leva a outra questão - se alguns adeptos assobiam com a mesma veemência adversários e atletas do seu clube, das duas uma: ou querem enervar ambos, e portanto não se percebe porque raio assobiam os "seus" jogadores, ou querem incentivar ambos, num retorcidíssimo exercícios psicológico, e então fico sem saber o que os leva a assobiarem o adversário. A não ser que pretendam com o mesmo assobio incentivar o seu atleta e enervar o adversário, o que é assim como se eu tomasse veneno dos ratos para curar a tosse ao mesmo tempo que o espalhava para matar os ditos. Enfim. Admito que sou um pouco limitado de raciocínio, e que me escapam estas subtilezas.

Admito e aplaudo, porém, que se assobiem jogadores adversários que tenham passado pelo Sporting e que tenham de alguma forma ofendido o clube por actos ou palavras. Não é comum em Alvalade, que, pelo contrário, tem por hábito aplaudir jogadores adversários que tenham passado por Alvalade, mesmo jogadores pouco relevantes. Quem vai a Alvalade sabe que é normal antigos jogadores do Sporting serem aplaudidos, às vezes com entusiasmo, quando são substituídos ou quando entram. Só quem não percebe o que é fair-play pode estranhar. Assobiados e vaiados assim de repente só me lembro do Simão "Devo tudo ao meu Sporting" e do Quaresma.

Assobiar e apupar jogadores que sairam do clube *e* cuspiram no prato onde comeram, cujo exemplo mais acabado é o do Simão, não me parece mal.

Assobiar e apupar jogadores que sairam do clube porque lhes ofereceram melhores condições noutro lado mas que continuam a respeitar o antigo clube - seja ele qual for - parecer-me-ia inqualificável, se não fosse pueril, estúpido e digno de um troglodita. Assobiar e apupar jogadores que não sairam do clube, que não ofenderam em nada o clube, que se dedicaram sempre de corpo e alma ao clube, que se tornaram símbolos do clube - apenas porque disseram que pretendiam sair, presumivelmente para melhorar a situação financeira e profissional, a mim parece-me, bom, não sei, é difícil encontrar palavras. Pueril não chega. Estúpido é pouco. Troglodita é eufemístico. Inqualificável talvez seja a melhor palavra.

O João Moutinho fez bem em vir para os "média" (*) dizer que queria sair? Não. Prejudicou-se a si mesmo, fragilizando quer a sua imagem, quer a sua posição no balenário e na equipa, quer a sua posição negocial. Fez bem em dizê-lo na véspera de um jogo? Não. Pode ter desestabilizado o balneário (que ainda assim chegou para arrumar tranquilamente o adversário megalo-milionário). Deve sair de um clube que joga para o título e vai na terceira presença consecutiva fase de grupos da Liga dos Campeões, em favor de um clube pouco relevante da liga inglesa? Não, mas é problema dele, além de uma inacreditável burrice estratégica.

Mas, e citando de cor um artigo d'A Bola que folheei enquanto arrotava a regalada morcela de arroz (**) do baptizado dos meus sobrinhos (***), que tão grandes amargos de boca me vai trazer quando vir a balança a vergar mais do que deve para o lado direito, eu pergunto: o rapaz em algum momento disse que não gostava de estar no Sporting? Disse em algum momento que não se ia dedicar como sempre se dedicou, caso, como tudo indica, não se fosse embora? Demonstrou, em algum momento, falta de respeito pelo clube ou pelos seus adeptos (e não, dizer que quer sair não é falta de respeito, se do outro lado lhe oferecem melhores condições)?

Não, não, e não. Nunca disse que não gostava de estar no Sporting. Nunca disse que caso ficasse não se ia dedicar como sempre. Nunca, em momento algum, faltou ao respeito ao clube ou aos adeptos. Disse apenas que, por motivos pessoais que entretanto se tornaram públicos e que, frisou, nada tinham que ver com o clube, precisava de sair. E estes mesmos adeptos que receberam de vendidos braços abertos o Jardel depois de este ter desrespeitado de todas as formas possíveis o clube agora assobiam e apupam um miúdo que, recordemos, não só nunca desrespeitou o clube, como o tem honrado e servido com uma dedicação e profissionalismo raros de achar no futebol actual, a ponto de ser respeitado e elogiado até pelos tradicionais rivais do Sporting. Apesar disso, assobiaram-no e apuparam-no, como assobiaram e apuparam (com justiça) em outras ocasiões o Simão.

Dir-me-ão que a reacção dos adeptos - adeptos? Não, adeptos não assobiam os seus melhores jogadores - dir-me-ão que a reacção de alguns dos presentes ontem em Alvalade se deveu precisamente ao sentimento de desilusão perante a surpreendente intenção revelada pelo Moutinho. Ora bolas, então agora apupa-se, assobia-se e ofende-se quem, sem nos ofender nem desrespeitar, nos desilude de alguma forma? Imagine-se que, depois de verificar a excelência latina do nosso amigo aquilino desde as primeiras aulas, eu tinha reagido da mesma forma que estes senhores ao saber que o meu dilecto aluno era lampião. Tolerar-se-ia que eu tivesse saltado de trás da secretária e tivesse começado a assobiar e a urrar bu bu bu? Que de cada vez que o nosso Aquila entrasse na sala eu lhe lançasse os papéis e os livros à cabeça? Berrava e urrava e grunhia sempre que ele abrisse a boca? Que faria eu então se fosse como esses senhores e se ele me tivesse vindo dizer que o meu horário não lhe dava jeito e que por motivos pessoais tinha de ir latinar para outra freguesia? Esfregava-lhe o apagador na cara?

Não, dirão, seria louco se o fizesse. Mas foi precisamente isso que aqueles senhores fizeram. Acharam feio que o rapaz , sem em momento nenhum ter faltado ao respeito ao clube ou aos adeptos, tivesse dito que precisava de sair? Admitamos que sim. E o que eles fizeram, foi bonito? Não menos do que se eu tivesse assobiado, berrado, urrado e grunhido se o meu caríssimo Aquila tivesse vindo ter comigo no fim de uma aula e me tivesse dito que ia mudar de turma por motivos que nada tinham que ver comigo.

E eu só posso supor uma coisa: que não eram adeptos sportinguistas. Que eram lampiões inflitrados. Porque só a adeptos adversários passaria pela cabeça assobiar, apupar e ofender um dos melhores jogadores da equipa - se não o melhor - apenas porque o rapaz disse, sem ofender nem enxovalhar nem faltar ao respeito a nada nem a ninguém, que, por motivos pessoais alheios ao Sporting, tinha de sair do clube e melhor assim a sua situação profissional.

É que bater na mãe é feio. Sempre. Mesmo quando nos desilude ou aborrece. E ao nosso clube e aos seus jogadores, quando o honram e respeitam, devemos respeito e honra. Não como devemos à nossa mãe, mas como devemos a tudo o que amamos. E aqueles senhores claramente não amam o Sporting.

Vou dormir que o meu mal é sono.


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(*) É latim, não é inglês, deve-se pronunciar com "é".
(**) Alusão inevitável à boa comida.
(***) Sim, casamento ontem no Porto e baptizado hoje, aqui na moirama.

segunda-feira, julho 28, 2008

Primeiro


benfica 0 - 2 Sporting

Não gosto de jogos de pré-época. São geralmente mal jogados, aborrecidos, com os jogadores medianos a darem o litro para convencerem o treinador e os consagrados a recuperar das férias chutando bolas pachorrentas, indiferentes ao jogo, sabendo que o lugar está garantido. Há excepções, como em tudo, mas a regra é a do aborrecimento. Por isso raramente vejo jogos de pré-época em anos de Mundial ou Europeu - nos outros anos o desespero depois de um mês sem bola é tal que até futebol feminino marchava, se desse na TV, o que, graças aos deuses de quem me lê, não acontece.

Abri ontem uma excepção para ver curtos nacos do Celtic e do Sporting. Estando em casa de amigos, no meio de uma festa onde imperavam os eslavos com a sua característica euforia bem disposta, conseguindo nesse campo superar as espanholas, e esmagando os sorumbáticos e minoritários portugueses, lá ia conseguindo espreitar de vez em quando o Celtic, pois havia dois morcões na festa (um português e um ucraniano), e mais vezes o Sporting, apoiado nos meus propósitos por um bielorrusso e um marroquino, leões convictos. Não gostei do que vi de um lado e do outro, salvando-se porém, em ambos os casos, o resultado. Mas gostei muito da comida.

Hoje, embora o trabalho me berrasse com esbracejos desesperados, decidi ver o Sporting no torneio Guadiana. Sem grande atenção, com um olho pequenino na TV e um enorme no computador, onde aborrecidos gatafunhos seiscentistas, exumados das gavetas muito públicas do Arquivo Secreto Vaticano e papalmente pagos a peso de ouro, me iam enchendo o estômago de artigos e decisões e papas e bispos e epístolas e o raio que os partisse a todos deus-nossenhor-me-perdoe-que-sou-ateu. Gostei moderadamente. Assim como gostei dos cogumelos russos de ontem, afogados num molho estranho. Duas colheradas. Assim-assim. Bonzinho. Ma non troppo, pardon my italian. Mas nada comparado ao belíssimo polvo galego feito por uma galega a sério.

Gostei de ver o Sporting a controlar calmamente o jogo, a marcar dois golos. Gostei de ver que o Djaló continua a calar os assobiadores. Gostei de ver o Rochemback, aumenta-me sempre a auto-estima ver um tipo mais gordo que eu a jogar ao mais alto nível. Gostei de ver a coerência da equipa do Sporting, decorrente da continuidade dos jogadores titulares da época passada, apenas com 2 reforços no 11 inicial, em contraste com a tradicional manta de retalhos benfiquista no início de cada época, reflectindo políticas directivas e desportivas que vão em sentidos opostos, e cujos reflexos se têm feito sentir nas pçosições relativas dos dois clubes nos últimos anos. Gostei de ver que o Carlos Martins mantém no Benfica o nível que tinha no Sporting em 98% dos jogos. Gostei de ver que o Moutinho não jogou, confirmando-se que o Paulo Bento tem mão, ainda que às vezes a tenha em demasia. Gostei do resultado.

Não gostei dos anormais que armaram desacatos antes e durante o jogo, e é com tristeza que verifico que muitos sportinguistas se portaram como benfiquistas (por este andar qualquer dia armam confusão entre eles mesmos). Não gostei do Postiga, que nos minutinhos que esteve em campo só mostrou aquela coisa a que os romanos chamavam "merda" (dito assim, em latim, soa mais suave, não vos parece?). Não gostei do Bynia, que claramente devia estar a jogar na equipa de râguebi ou então a praticar luta livre, e é só uma questão de tempo até magoar de forma muito séria um jogador adversário - por enquanto só vai magoando a sensibilidade dos espectadores mais suceptíveis. Andei à procura do palhacito do Aimar (é assim que lhe chamam, não é, "el payasito"?), mas não o encontrei, por isso não posso dizer se gostei ou não - e estava com muita expectativa, dado o festival épico-patético que foi a sua contratação.

O Sporting conquistou o torneio, o que não quer dizer nada, não significa nada, e nem sequer é moralizante, dado o nível dos adversários. Serviu para descontrair enquanto se esperam os jogos a sério. Agora com licença que tenho de ver se no meio do latim não andei a cuspir impropérios futebolísticos, o que desagradaria bastante ao meu orientador, que até é portista.

domingo, julho 20, 2008

"Sempre defendi, pessoalmente, que o Benfica não deveria ir à Liga dos Campeões" . 3

ou
A raposa e as uvas

A notícia já tem uns dias, mas o trabalho tem sido tanto e a diponibilidade tão pouca que só agora arranjo um bocadinho para vir para aqui derramar fel. Diz o presidente dos lampiões que, apesar dos recursos para a UEFA, nunca quis ir à eliminatória da Liga dos Campeões no lugar dos morcões. Fica-se, portanto, sem saber o que levou então a direcção dos lampiões a fazer a tristíssima figura (mais uma) do recurso à UEFA sobre a participação dos morcões na Liga dos Campeões. Se era só para chatear e dizer no fim "agora não queremos nós", está tudo dito quanto à maturidade e visão dos dirigentes, se dúvidas ainda houvesse. Se era não, então a frase do Luís Filipe Lampião só pode ter uma leitura: tal como a raposa da fábula, vem agora dizer que as uvas estão verdes, depois de desesperada e ridiculamente ter tentado obter precisamente o que agora diz que nunca quis (*). Há ainda uma terceira hipótese, a de que realmente o homem não queria, e que o recurso foi apresentado à revelia. Nesse caso fica a questão: quem manda no benfica?

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(*) Para os menos cultos que não entenderam a alusão literária, quer dizer que só depois de ver que não conseguia o que desesperadamente tentara é que veio dizer que afinal não queria.

"Sempre defendi, pessoalmente, que o Benfica não deveria ir à Liga dos Campeões" . 2

Sempre defendi, pessoalmente, que o Benfica não deveria ir à Liga dos Campeões
Luís Filipe Vieira

De uma coisa não se pode acusar o homem: de incompetência. A sua gestão, de facto, tem primado pela ideia de evitar a todo o custo que os lampiões vão à Liga dos Campeões.

"Sempre defendi, pessoalmente, que o Benfica não deveria ir à Liga dos Campeões" . 1

sexta-feira, julho 04, 2008

Nacionalismos

A notícia já não é nova, mas recordê-mo-la: a UEFA, através do seu comité técnico, colocou Pepe e Bosingwa na equipa ideal do Euro'08. Portanto, dois jogadores nacionalizados, um brasileiro, o outro congolês.

A questão das nacionalizações (eufemisticamente designadas "naturalizações") tem sido levantada por diversas entidades, e o samba que soou este Verão na Áustria e na Suíça em nada ajudou a sanar as divergências. Quanto a mim, vacinado há muito contra a praga do nacionalismo e indiferente ao patrioteirismo futeboleiro, confesso que não me aquece nem me arrefece. Para mim patriotismo é pagar os impostos a tempo e horas, não alinhar em esquemas "sem factura é mais barato", escrever sem erros, não deitar lixo no chão, cumprir o código da estrada, e outras coisas importantes. Pôr arremedos de bandeiras made (badly) in China à janela e apoiar um grupo de marmanjos só "porque sim" não está na minha lista de comportamentos patrióticos. De resto, eu sou como o Guardiola, que dizia "la meva selecció és el Barça" (pardon my catalan). A minha é o Sporting.

Sou, portanto, indiferente a patrioteirismos futeboleiros. Por mim ponham lá as bandeirinhas à janela à vontade. Eu se pusesse era a do Sporting. Mas não ponho. Já não sou indiferente, porém, a alguma dualidade de critérios que se tem verificado na generalidade da opinião pública portuguesa, quando se trata de admitir ou não admitir jogadores nacionalizados nas diversas selecções portuguesas. Para não ir muito mais longe, até porque hoje exagerei um pouco no ginásio, recordo a histeria à volta da selecção de râguebi, porque houve uns rapazes com excesso de peso que choraram a cantar o hino nacional. Alcandorados todos a heróis nacionais - todos, incluindo os argentinos nacionalizados e mais uns rapazes de nomes impronunciáveis, de sonoridade eslava, que por lá andavam entre os "lobos" (quando eu pensava que eram só as selecções africanas que tinham alcunhas...). Não sei se choraram a cantar o hino, mas o povão não se chateou nada, e ala que se faz tarde, são todos uns patriotas de primeira água.

É que para o português comum parece que a coisa funciona mais ou menos assim: se forem brasileiros nacionalizados, cai o Carmo e a Trindade (ou o que resta de 1755), e é a honra da nação que sai ultrajada. Se forem argentinos (os tais do râguebi), congoloses, nigerianos, eslavos, então não se passa nada, está tudo bem. Para não nos dispersarmos pelas diferentes selecções, onde abundam, perante a indiferença geral (e ainda bem), os nacionalizados dos 4 cantos do mundo, concentremo-nos na selecção de futebol. Foi generalizada a indignação, sobretudo de benfiquistas, por causa da nacionalização e convocatória do Deco. Mas não ouvi um único queixume a propósito do Makukula, congolês de Kinshasa. Sim, esse mesmo que não há muitos anos afirmou publicamente que recusava representar a selecção portuguesa, pois queria a congolesa (para a qual de resto não chegou a ser convocado). Esse mesmo que veio depois fazer um tremendo teatro, quando convocado pelo sr. Scolari, chorando lágrimas de crocodilo, alegando que a convocatória era um sonho. Um sonho? O sonho dele era que o pessoal tivesse memória curta. Mas eu não tenho. Infelizmente parece que, sobretudo para os lados do CC Colombo, a memória é coisa que vai falhando com cada vez maior frequência.

Para quê trazer o Makukula à colação, e não outros ilustres nacionalizados não brasileiros, como o Bonsingwa, o Nani ou o Nélson (o lampião), só para referir alguns já dos tempos do sr. Scolari? Porque uma das alegações contra as convocatórias dos nacionalizados brasileiros é a de que alegadamente só se tornaram portugueses por interesse, para lançarem as suas carreiras, e porque no Brasil não tinham hipóteses. Além de ser muito complicado provar tais alegações, e de eu ter seriíssimas dúvidas sobre se o Deco ou o Pepe se sentem menos portugueses do que eu (menos é complicado, de facto), pode-se sempre contra-argumentar com este caso Makukula, exemplo provado e acabado de alguém que só integra a selecção portuguesa, depois de a ter previamente recusado, após ver que não se safava na do Congo. Mas parece que com ele está tudo bem. Não é brasileiro, não há problema.

Além disso, também podemos perguntar-nos quantos jogadores estão ou estiveram na selecção com intenções puramente patriotas. O Figo, que recusou integrar a selecção quando estava na crista da onda em Madrid, alegando que tinha de dar prioridade ao clube que lhe pagava (ao menos foi sincero), e que, quando foi para o banco do Bernabéu e percebeu que tinha de mudar de ares depressa, veio fazer olhinhos aos srs. Scolari e Madail, e, dando o dito por não dito, ainda fez mais meia dúzia de jogos? Isto já sem falar das recorrentes discussões sobre prémios de jogo, dignas de selecções do 3º mundo, e de casos como o lamentável "Saltillo", em que um grupo de patriotas ameaçou fazer greve durante o Mundial'86, e acabou mesmo por se recusar a jogar a quase totalidade da qualificação para o Euro'88, para gáudio das restantes selecções do grupo, que defrontaram um grupo de 2ªs e 3ªs escolhas, que em circunstâncias normais não seriam convocados nem pelo sr. Scolari. É este o amor à camisola que dizem que só os de sangue puro lusitano (seja lá o que isso for) podem sentir? Eu por mim não tenho a mais pequena sombra de dúvida: o Pepe e o Bosingwa são muito mais portugueses do que eu. O Deco não sei nem me interessa, o Makukula já se viu que é de quem o convocar.

Podia ainda tentar contrariar alguns argumentos mais divertidos, como o de que "não deve haver jogadores com sotaque", mas basta ouvir o português sofrido do Bosingwa ou o impenetrável açoriano do Pauleta para o argumento cair por terra sem ser preciso grandes abanões.

Portanto, e como praticamente ninguém se indignou com a chamada dos nacionalizados Bosingwa e Makukula (e ainda bem), resta-me concluir que de facto o que há é má vontade contra os brasileiros. Que o assumam, portanto, e não se escondam atrás do argumento do nacionalismo ou patriotismo.

Repito: nacionalismos a mim não me convencem, e a História tem mostrado, desde que foram inventados algures no século XIX (*), que daí, como de Espanha, nem bom vento nem bom casamento. Além disso, se o propósito é representar a nação (qual?), então não faz muito mais sentido que se represente o país tal como ele é, de facto, uma mistura de portugueses, brasileiros, africanos, eslavos, asiáticos? Isto dando de barato que uma selecção de futebol representa um país, o que me parece redutor e lamentável.

Diz que é para comentar a não inclusão do Ronaldo na equipa ideal do Euro'08? Então mas a ideia não é precisamente pôr lá os jogadores que mais se destacaram? Então o que é que o Ronaldo ia lá fazer? Mostrar os seus horrendos peitorais hipertrofiados?



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(*) Antes disso valiam sobretudo as fidelidades a uma casa real, não a um país. Isso explica, por exemplo, que a nobreza portuguesa tenha ficado praticamente toda do lado de Filipe IV, em 1640, quando, aproveitando-se da revolta da Catalunha e da Guerra dos 30 Anos, a coroa portuguesa foi restaurada, na cabeça de D. João IV (Filipe IV, na perspectiva de perder a Catalunha ou Portugal, preferiu garantir a Catalunha, e só anos depois, quando o exército português já tinha tido tempo de se reorganizar, decidiu vir aqui para estes lados, ainda fragilizado da Guerra dos 30 anos, e depois de esmagada a revolta catalã). Ou que na célebre batalha de Aljubarrota houvesse quase tantos portugueses do lado castelhano como do anglo-português, e que parte muito significativa da nobreza portuguesa tenha ficado, de novo, do lado castelhano. Mas isso são contas de outro rosário. Aqui é mais bola.

[publicado originalmente no Facciosos]

O cão que mordeu o homem

Dizer que houve desacatos numa assembleia geral do benfica é um pouco como dizer que um cão mordeu um homem. É que em Londres há nevoeiro. Em Paris a Torre Eiffel. Em Sevilha as festas da Semana Santa. Nas assembleias gerais do Benfica há desacatos. Nihil noui sub sole.